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Eu, Paracelso


Do Latim “opera”, a palavra “obra” traz consigo a marca de uma vitória do homem sobre a natureza, sua e externa: trata-se de esforço, trabalho, ação deliberada em prol de alcançar um resultado específico. Assim também é com “operação”, palavra normalmente associada ao contexto da medicina, mas que se estende para qualquer atividade humana onde exista dificuldade. Toda obra é, portanto, vitoriosa em si, porque vence inúmeras forças contrárias, e com muito custo se impõe diante dessas marés opostas.
Assim é o modo de existência da Orchestra Binária, uma banda carioca que em 2016, cinco anos após seu primeiro EP, entrega ao mundo o segundo registro oficial de sua carreira, com o mesmo número de faixas de seu antecessor. É graças a muito trabalho, isto é, muito esforço, que o EP #02 existe enquanto obra.

Seja pelo hiato incomum em uma época onde o habitual é que as bandas independentes produzam ininterruptamente como forma de afirmar uma linguagem e uma força criadora autônoma, seja pelo tortuoso processo de produção do material (assinado pela própria Orchestra e por Emygdio – responsável direto pela existência de projetos elogiados como Fábrica, Anganga e Sobre a Máquina), o parto do segundo EP não pode ser entendido como mera continuação do trabalho anterior, embora a dificuldade de entregá-los à luz seja basicamente a mesma.

Enquanto a estreia do grupo aproveitou a produção caseira e de longa data construída por seus três integrantes (a saber: Dutra, órgão e teclados; Silva, guitarra; Oliveira: guitarra e programação – todos dividem a função de vocalista e de autoria das letras), o novo trabalho enfrentou diversos percalços para se tornar o que é. As canções, em sua primeira versão, ainda deviam muito de sua sonoridade ao EP anterior, nas suas limitações e na sua potência criativa. Foi a entrada de Emygdio (que assume o baixo em quase todas as faixas, além dos ruídos) a principal alteração nos rumos da história, reprocessando o já exaustivamente reprocessado até que a Orchestra Binária praticamente se reinventasse diante do processo de criação e execução das canções, muito diferente dos hábitos adquiridos em suas gravações primeiras. Nesse sentido, as cinco canções do EP totalizam mais de quinze, se contadas as versões anteriores delas próprias (“Galileu” surgiu de uma faixa instrumental; “Maio” tinha letra diferente; “Parametrizar” beirava os dez minutos de duração etc.).

Explorando o campo simbólico das canções, pode-se afirmar que o EP #02 explora universos líricos até então inéditos no repertório da banda, principalmente pela apropriação de referências científicas e cósmicas para desenvolver uma narrativa humana de perda e reencontro consigo mesmo. Se “Maio” funciona como introdução a esse universo, revelando a conexão do sujeito poético ao tempo e a estados de sua própria subjetividade, “Gira (a girar)” escancara a humanidade em sua dor inevitável, num quase processo de enlutamento freudiano (“com Valiuns e vinho quente/eu trago você de volta ‘pra mim”), e que redundará nos questionamentos metafísicos de “Galileu” (“chama Galileu pra me decifrar” ou “nunca esteve aqui, mas faz falta desde que chegou”, um verso que poderia ter saído da mente de Jorge Du Peixe, líder da Nação Zumbi). Na sequência, “Parametrizar” parece ser a materialização de uma entidade matemática e cósmica senhora do tempo e dos destinos, arauta do Aleph de Borges: “vou te fazer entender que aquela Curva sou eu” sendo o trecho mais representativo do poder do Imponderável diante de nossa existência. Embora parta de um conceito matemático, a parametrização, o eu-lírico fornece uma sequência de frases cifradas, exigindo do ouvinte ouvidos de iniciado. Se capaz de compreender o que são a “Antiga Equação” ou a “Virtuosa Razão”, então estará apto a compreender as elipses de “Decodificando” como uma espécie de balanço existencial diante do encontro com o “Absoluto” e o “Movimento” da faixa anterior. Talvez por esta razão é que a letra afirme que “do que não aconteceu não se pode falar”: porque é necessário viver para registrar, e é necessário registrar para viver mais.

Não se pode afirmar categoricamente, sobre este EP, que se trata de um trabalho conceitual tal como nos acostumamos a entender, mas evidentemente há uma costura invisível que atravessa as canções de modo a fazer delas um mosaico de sentimentos e afetos que dialogam uns com os outros e constroem diante de nós um centro pulsante, um beat que se comunica ainda que não tenha sido produzido em estúdio. É como se o grupo estivesse tentando agir segundo o místico Paracelso, ao propor que podemos conhecer os objetos de maneira mais profunda que a mente racional pode supor apreender. A tarefa da Orchestra Binária seria, então, conduzir seu ouvinte a uma experiência de contato com esse conhecimento, fazendo disso um crescimento não apenas do outro, mas de si mesma.

A sonoridade do EP também merece destaque, e nesse campo a contribuição de Emygdio é flagrante: são impressionantes os efeitos apresentados em cada uma das canções, cujas texturas fazem os Filhos de Ben soarem cada vez mais complexos em suas referências musicais, embora o façam de maneira absolutamente orgânica. Melodias etéreas, linhas de guitarra e baixo que conversam de maneiras inusitadas e camadas sonoras que projetam o ouvinte para o céu, o cosmos, o universo: “Galileu” e “Decodificando”, por exemplo, são dois momentos do EP que preparam a Orchestra Binária para um novo horizonte sonoro, a ser explorado em futuros projetos – “Maio” também parece se encaixar neste roteiro. “Gira (a girar)”, por sua vez, é a música mais pop do disco, com uma guitarra que faz lembrar “Morning Mr Magpie”, do Radiohead, grupo que também fica subentendido no primeiro minuto de “Decodificando”. Já “Parametrizar” recupera, em certa medida, a ensolarada “Dona Maria”, do EP anterior, flertando com o afrobeat de Fela Kuti em uma letra que também encontra a referência maior do grupo, Jorge Ben Jor, em sua fase esotérica (notadamente “A tábua de esmeralda” e “Solta o pavão”, duas obras-primas da década de 70 na música brasileira). A propósito, os vocais em “Decodificando” parecem vir de um Thom Yorke sincretizado com Jorge Ben. Por fim, outra novidade deste EP é a colaboração feminina nos vocais: “Maio”, faixa de abertura, tem a letra cantada por Carolina Ochotorena, que também assina o projeto gráfico – simples, e por isso mesmo muito eficiente em sua proposta de levantar hipóteses de metáforas visuais sobre a condição dos objetos dispostos na capa do trabalho, por exemplo. Talvez o fato de “Maio” ser cantada por uma mulher seja o início de uma abertura a diferentes vocalistas nos futuros lançamentos, como é de praxe em grupos do calibre de um Massive Attack.

Assim, neste EP, o grupo ratifica não apenas sua identidade estética, mas a proposta coletiva na composição de seus trabalhos, que contam sempre com outros esforços, outros trabalhadores. Esta parece ser mais do que uma reunião ocasional de artistas parceiros em prol da obra que se apresenta: é, de fato, uma intenção criadora, uma pulsão vital, um modus operandi que se afirma continuamente. Obra aberta não para análise, mas em sua própria gestação. A Orchestra pode ser binária, mas no cálculo alquímico desta reunião os Filhos de Ben são muitos.

credits

released November 21, 2016

ORCHESTRA BINÁRIA
Dutra, Silva e Oliveira

FICHA TÉCNICA - EP#02

Direção artística por Orchestra Binária

Projeto visual e arte gráfica por Carolina Ochotorena

Argumento por Brayan Carvalho

Produzido por Orchestra Binária e Emygdio

Gravado na Paracelso Records (Cidade de Deus/Rio de Janeiro) e no home estúdio de Emygdio (Taquara/Rio de Janeiro), entre 2012 e 2016

Mixado e Masterizado por Emygdio

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Orchestra Binária Rio De Janeiro, Brazil

Kalakuta é na CDD.

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Track Name: Maio
Cinza como maio, nunca se viu.
Cheio e sem sentido, como em abril.
E depois partiu.
Track Name: Gira (a Girar)
Você me fez acreditar, acreditar que era ‘pra sempre.
‘Pra sempre, você me fez acreditar.
Com valiuns e vinho quente, eu trago você de volta ‘pra mim.
Eu trago você de volta pra mim.
E o mundo volta a girar.
Track Name: Galileu
Chama Galileu pra me decifrar
Sou Nova, Supernova, Ultranova estelar
Nunca esteve aqui, mas faz falta desde que chegou
Farta de luz meu olhar
Track Name: Parametrizar
Eu vou parametrizar você
Vou te fazer entender que aquela Curva sou eu
O Absoluto é a Matéria, o Movimento é a Verdade.
O Caminho revela: O Inteiro não é a Metade.
De Um não se faz Dois:
- Como a Antiga Equação.
De Dois se fazem Um:
- Virtuosa Razão.
Track Name: Decodificando
Só O Que houve vai perdurar.
Do Que não aconteceu, não se pode falar.
E até Quem ouve pode não escutar.
O que uma boca diz mesmo sem nada falar.